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“Sei estar abatido, e sei também ter abundância...” Filipenses 4.12

 


“Sei estar abatido, e sei também ter abundância...” Filipenses 4.12

O imperador romano, e filósofo, Marco Aurélio, escreveu: "Um dos deveres de toda pessoa é aprender a ganhar riquezas sem se afetar pelo orgulho e aprender a perdê-las sem se afetar pelo apego".

Mas o que isso tem a ver com o texto de Filipenses 4.12?

É exatamente sobre isso que Paulo está falando nesse versículo, e compreender a essência desse ensinamento do apóstolo vai nos libertar permanentemente de uma quantidade inimaginável de aflições de espírito (sofrimentos).

Então vamos começar nossa reflexão.

Há um fenômeno estranho acontecendo com a maioria das pessoas que vivem em países abastados como o Brasil ou mesmo os Estados Unidos e até outros.

E que fenômeno seria esse?

As pessoas que têm muito não sabem ter muito e as pessoas que têm pouco não sabem ter pouco. De fato, o que está acontecendo é que aqueles que têm pouco estão lutando e se sacrificando frenética e desesperadamente para ter muito, ou ao menos aparentar que têm muito; enquanto aqueles que já têm muito estão lutando à exaustão e se sacrificando frenética e desesperadamente para não perder o que têm e alcançar cada vez mais. O que nenhum desses dois grupos de pessoas parece saber é que esses comportamentos demonstrados por eles são "as duas faces da mesma moeda", e, portanto, são igualmente danosos à mente, ao corpo e até ao espírito de qualquer um que aja dessa maneira. Outra coisa que eles não sabem é que as aparências não significam nada, na verdade um pobre pode ser verdadeiramente rico e um rico pode ser realmente pobre, como está escrito em Provérbios 13.7, que diz: "Há quem se faça rico, não tendo coisa nenhuma, e quem se faça pobre, tendo grande riqueza.".

Ao invés de desgastarem as próprias forças físicas, mentais e espirituais se comportando dessa forma ineficaz, o que tais pessoas deviam fazer é tomar conselho e instrução nos escritos de homens sábios como Paulo, que passaram por momentos de grande abundância e de grande privação sem se deixar afetar por nenhuma dessas circunstâncias; foi por esse motivo que o Apóstolo fez questão de registrar em suas cartas o que está escrito em Filipenses 4.12, que diz: "Sei estar abatido e sei ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como padecer necessidade.".

Paulo compreendia que tentar fugir loucamente daquilo que a sociedade chama de pobreza é tão prejudicial quanto tentar alcançar, ou viver, loucamente, naquilo que a sociedade chama de riqueza, de modo que ao proferir e registrar as palavras de Filipenses 4.12 ele estava deixando claro aos verdadeiros cristãos que em algum lugar entre aqueles dois comportamentos alucinados e insensatos demonstrados pelos indivíduos, tanto os pobres quantos os ricos, há um ponto de equilíbrio espiritualmente racional capaz de produzir serenidade e contentamento independentemente das circunstâncias sociais as quais sejamos submetidos, independentemente de se temos muito ou se temos pouco.

Esse ponto de equilíbrio é, na verdade, um estado de espírito que pode e deve ser conscientemente praticado todos os dias de nossa vida, pois ao instruirmos nossa mente de forma adequada criaremos um amplo espaço psicológico de serenidade e satisfação, onde os fortes ventos sociais de abundância ou de escassez não conseguirão nos açoitar e mesmo que esses ventos alterem tudo a nossa volta, para melhor ou para pior, nós permaneceremos inabaláveis, pois a pobreza é tão apta para desvirtuar e corromper a vida e a fé das pessoas quanto a riqueza. Lembre-se que muitos desvirtuam a própria fé por possuírem demasiada abundância da mesma forma que outros o fazem por demasiada escassez; mas aqueles cuja mente é instruída de maneira adequada para viver tranquila em qualquer circunstância, como Paulo revela ter feito a si mesmo ao dizer: "...Em toda maneira e em todas as coisas, estou instruído...", esses permanecerão sempre de posse de sua paz interior, tranquilidade exterior, assim como de uma fé sempre pura e inabalável, e ninguém nem nenhuma condição boa ou ruim poderá movê-los dessa posição psicoespiritual equilibrada.

Nesse momento você deve estar pensando o seguinte: Qual seria esse ponto de equilíbrio?

O desapego.

Mas como assim?

Quando falo a palavra desapego, o que estou querendo dizer é que não devemos deixar nem que nossa aversão a pobreza, nem que nossos sonhos de riqueza produzam tantos, atritos, ruídos, vozes, interferências, ilusões e desgastes em nossa mente a ponto de inquietar nosso espírito e vida. O ideal para viver com um espírito tranquilo, e em paz, em qualquer situação, é que aquele que é pobre não se preocupe exageradamente nem se inquiete por causa da pobreza (lutando além do necessário para escapar dela), como o texto de Provérbios 23.4 ensina ao dizer: "Não te canses para enriquecer..."; da mesma maneira que aquele que é rico não se inquiete nem se preocupe em demasia por causa da sua riqueza (por medo de perdê-la ou por desejo de aumentá-la); por isso também foi escrito em Filipenses 4.6A: "Não estejais inquietos por coisa alguma...", nem pela pobreza nem pela riqueza.

Ou seja, que o pobre não ambicione loucamente além de suas possibilidades e não tema desesperadamente perder o que possui; e igualmente, que o rico não tema desesperadamente perder o que tem e nem ambicione loucamente além de suas capacidades, pois a ambição e o medo são poderosas fontes de inquietação e insatisfação; e, a combinação dos dois é como uma bomba capaz de gerar e alimentar muitas outras angústias mais pesadas, devastando a saúde física, mental e espiritual da vida de qualquer um. Se for possível ao indivíduo viver com muito, de forma serena, que viva assim, mas se não for possível, é preferível que viva com pouco de maneira tranquila; por esse motivo também foi escrito em Provérbios 15.16: "Melhor é o pouco com temor do SENHOR do que um grande tesouro onde há inquietação.".

E como nós podemos encontrar esse ponto de equilíbrio na nossa vida?

Usando a instrução da sabedoria para treinar a nossa mente de forma antecipada e assim afastar as insanas insatisfações e inquietações provocadas tanto por uma vida de abastança como por uma vida de escassez, pois acredite, ambas podem ser extremamente e igualmente enfadonhas, estressantes e nocivas para aqueles que não cultivam a sabedoria na maneira de pensar e agir. Foi também por esse motivo, para cultivar uma vida além das afetações e do apegos nem da pobreza nem da riqueza que o sábio Agur, filho de Jaque, o oráculo, fez a seguinte oração registrada em Provérbios 30.8b, que diz: "Não me dês nem a pobreza nem a riqueza; mantém-me do pão da minha porção acostumada.". Em outras palavras, a essência dessa oração é: "Conceda-me apenas o que é necessário e suficiente para eu viver bem". E esse entendimento espiritual é utilizado pelos cristãos verdadeiros porque se conecta diretamente com a sabedoria contida no trecho da célebre oração do Pai Nosso ensinada por Jesus, registrado em Lucas 11.3, que diz: "Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano.".

Tanto aqueles que estão em abundância quanto os que estão em escassez devem cultivar o desapego pela situação em que estão, por seus próprios sonhos e desejos de consumo, pela ambição àquilo que a sociedade chama de riqueza e pela aversão àquilo que a sociedade chama de pobreza, pois geralmente tais coisas são as causadoras de grande parte de suas insatisfações cotidianas.

Mas como fazer isso?

Treinando a si mesmo. Ou seja, por determinado período de tempo todos os meses, ou a cada dois meses, ou no tempo que lhes for mais adequado, os indivíduos devem treinar a própria mente forçando-a a não ambicionar nada além daquilo que já possuem ou do que lhes é estritamente necessário para viver de forma tranquila; apenas coisas como comida e abrigo, exatamente da maneira que o próprio Paulo nos ensinou em 1 Timóteo 6.8, que diz: "Tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes.". Assim sendo, durante esses períodos em que estiverem treinando a própria mente tais pessoas devem evitar os desejos por comprar roupas, eletrônicos, enfeites para o lar, o qualquer outra coisa que por ventura possa ser tirado de suas mãos pelas "traças" e pela "ferrugem" ou por "ladrões" tal como o ensinado em Mateus 6.19, que diz: "Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e os ladrões minam e roubam.". Como também foi dito pelo escritor cristão C.S Lewis: "Não deixe que a sua felicidade dependa de alguma coisa que você pode perder." 

Viva nesses períodos de treinamento de sua mente procurando aprender a fazer os ajustes necessários para que você consiga viver bem tirando o máximo proveito de tudo o que Deus já colocou nas suas mãos, mesmo que seja pouco, e treine sua mente para se satisfazer apenas com as coisas que são realmente necessárias e suficientes para sua vida, evite os supérfluos e todo tipo de extravagâncias e exageros. Com essas práticas e um pouco de tempo qualquer um perceberá que as coisas das quais nossa vida realmente dependem são poucas e simples de conseguir desde que nossa mente esteja bem orientada e firmada pela razão, nossos olhos estejam livre de ilusões das vaidades e nossos pensamentos, sentimentos e emoções estejam bem guarnecidos pelo bom senso. Essa é a forma como o apóstolo Paulo conseguia viver tranquilamente em qualquer situação, tendo pouco ou tendo muito.

Os sábios como Paulo, Agur, Salomão, Daniel, José do Egito, a rainha Ester e muitos outros, compreendem que, na verdade não há nenhuma diferença entre ser realmente "rico" e ser "pobre" ou ser realmente "pobre" e ser "rico"; em outras palavras, o que quero dizer com isso é que os sábios(as) entendem que, o que o mundo chama de "pobreza" se for controlada e satisfeita torna-se em abundância; por isso o texto de Provérbios 13.23a diz: "Abundância de mantimento há na lavoura do pobre.", enquanto o que o mundo chama de "riqueza" se for descontrolada e insatisfeita converte-se em miséria, como está relatado no texto de Apocalipse 3.17 que você verá mais à frente. Tudo dependerá da forma como nossa mente lida com cada uma dessas circunstâncias da vida.

As pessoas cometem o engano de pensar que deixar a "pobreza" para alcançar a "riqueza" é só uma questão de ter mais coisas e mais poder aquisitivo, mas isso não passa de mais uma das persistentes ilusões do espírito do mundo, e não sou eu quem digo isso; pois veja o que o pastor Charles Spurgeon escreveu a esse respeito: 

"Se você diz: Quando eu tiver um pouco mais eu serei mais satisfeito, você está cometendo um engano, pois quem não é satisfeito com o que já tem não se satisfará com o que possa ter, mesmo que seja o dobro.". 

Uma grande verdade que muitos se recusam a admitir é que há multidões que não necessitam de pelo menos metade do que possuem, mas se convencem ou se permitem convencer de que precisam de pelo menos o dobro do que já têm, e esse é um engano terrível que torna a vida deles muito menos estável e muito mais confusa em todos os aspectos. Como a escritora e poetisa, batista, Maya Angelou, disse certa vez: "Nós necessitamos de muito menos coisas do que pensamos precisar.". E foi também para nos prevenir para que não venhamos a pensar dessa maneira equivocada da sociedade que a Escritura Sagrada em Eclesiastes 4.6 diz: "Melhor é uma mão cheia com descanso do que ambas as mãos cheias com trabalho e aflição de espírito.". 

De fato, toda mente instruída (devidamente preparada) será rica mesmo que tenha apenas pouco o que comer e trapos para vestir, ou nem mesmo isso, mas estará em harmonia consigo mesma, com Deus e com tudo o que a rodeia; enquanto que toda mente despreparada (inquieta, distraída, insatisfeita) será pobre ainda que possua muito dinheiro e bens, de modo que suas riquezas poderão até resolver alguns problemas, mas certamente virão acompanhadas de muitos outros problemas novos e maiores; como o filosofo grego Epicuro observou em uma de suas cartas: "A aquisição de riquezas tem sido não um fim, mas uma mudança, de problemas.". E a própria Escritura Sagrada corrobora com isso em Apocalipse 3.17, que diz: "Como dizes, rico sou e estou enriquecido, e de nada tenho falta (e não sabes que é um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego e nu."

As pessoas da famosa igreja de Laodicéia às quais a sétima carta foi direcionada são exatamente o tipo de indivíduos que têm muito e não sabem como viver assim, ou seja, indivíduos cuja mente transformou suas "riquezas" (abastança) físicas em misérias mentais e espirituais; eles não praticaram, não treinaram, ou seja, não instruíram a própria mente para aprender, como Paulo, a saber viver de forma tranquila, satisfeita e justa sob quaisquer circunstâncias, mas pelo contrário, se apegaram as suas "riquezas" e foram consumidos por elas e por todas as angústias que esse apego ímpio é capaz de gerar; por esse motivo também esta escrito no Salmo 37.7: "Vale mais o pouco que tem o justo do que as riquezas de muitos ímpios.".

Para encerar quero convidar você a refletir nas palavras de Sêneca, o filósofo estoico romano, que segundo alguns estudiosos, trocou correspondências com o próprio Apóstolo Paulo. Em certa ocasião escrevendo para um de seus alunos, chamado Lucílio, ele abordou esse tema da seguinte maneira: "Pois só aquele que está em afinidade com Deus, que pode desprezar a riqueza. É óbvio que não o proíbo de possuí-las, mas gostaria que você chegasse ao ponto de possuí-las intrepidamente; e isso só pode ser realizado persuadindo-se de que você pode viver feliz sem ela, bem como com ela, e sempre considerando que as riquezas podem possivelmente lhe iludir.".

Instrua a sua mente de maneira adequada e ela se tornará clara, sóbria, forte e afiada para lidar igualmente bem com ter muito ou ter pouco de tal forma que nunca mais a pobreza nem a riqueza serão um fardo ou uma preocupação na sua vida e perderão a capacidade que talvez possuam hoje de fustigar seus pensamentos, sentimentos e emoções. Instrua a sua mente e você estará plenamente no controle da sua existência, não perderá sua paz, nem sua alegria, nem sua saúde e nem a sua fé, independentemente das circunstâncias de abastança ou escassez, ainda que extremas, que esteja vivendo ou venha a viver; e, diferentemente das pessoas que estão sendo flageladas por esse estranho fenômeno social de não saber viver nem com pouco nem com muito, você sempre se fortalecerá tanto nas privações quanto na abastança e viverá de forma serena e contente, em constante afinidade com Deus.

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